Há manhãs que começam antes do corpo acordar,
há noites compridas sem vontade de acabar.
Há contas sobre a mesa, café já frio,
há quem trabalhe o dia inteiro e chegue a casa vazio.
Há costas carregadas, há olhos sem descanso,
há sorrisos no trabalho a esconder o cansaço.
Há sonhos numa gaveta, dinheiro contado,
há quem viva um mês inteiro com o salário emprestado.
Há.
Mesmo quando parece que não há.
Há qualquer coisa em nós
que se recusa a apagar.
Há.
E enquanto houver, eu fico.
Nem que seja por um fio,
nem que seja só comigo.**
Há quem tenha uma casa e não se sinta em casa,
há quem durma acompanhado e passe a noite acordado.
Há palavras engolidas, há nomes por esquecer,
há quem diga “está tudo bem” sem conseguir responder.
Há pais a fazer milagres com pouco na carteira,
há mães a esconder lágrimas atrás de uma vida inteira.
Há quem dê o último euro e ainda saiba partilhar,
há quem esteja quase no limite e continue a cuidar.
E há.
Há uma janela aberta, há alguém a respirar,
há um dia que ainda existe e ninguém te pode tirar.
Há chão debaixo dos pés, há céu para atravessar,
há qualquer coisa à tua espera que ainda não sabes nomear.
Há.
Mesmo quando parece que não há.
Há uma parte de nós
que ainda quer continuar.
Há.
Não prometo que seja fácil,
só te digo: enquanto houver,
ainda não acabou.**
Há.
E talvez seja pouco.
Mas hoje chega.
Há.