[Verso 1]
Nasci num século exausto de ruído cénico
gente a vender felicidade em plástico cénico
e eu a tentar manter o espírito íntegro
num mundo cada vez mais performático e histérico
Passei por mesas cheias sem alimento
por corpos bonitos sem acolhimento
por noites absurdamente iluminadas
onde ninguém sabia realmente o que estava a sentir por dentro
Hoje percebo:
há luxo em desligar o telemóvel
e ouvir a própria respiração sem vertigem
há riqueza em ter alguém
que permaneça sem estratégia
O resto quase sempre foi decoração emocional
[Refrão]
Livre…
não de dor
mas da necessidade de fingir grandeza
Livre…
como quem já perdeu suficiente
para perceber que o essencial
raramente faz espetáculo
[Verso 2]
Vi homens confundirem frieza com poder
e mulheres a apagarem-se para sobreviver
vi egos gigantescos incapazes de oferecer
um minuto de escuta sem se promover
Entretanto o tempo — esse escultor invisível —
foi limando a violência do meu impulso
e ensinou-me que maturidade
não é endurecer…
é não deixar o coração ficar inútil
Há uma elegância silenciosa
em quem continua sensível
depois do mundo tentar brutalizá-lo diariamente
Isso sim…
é raro
[Ponte]
Quero música que respire
não algoritmos com refrão reciclável
quero palavras com temperatura humana
e não frases feitas para parecerem profundas
Porque arte sem verdade
é só ornamentação acústica
[Verso 3]
Hoje já não corro atrás de omnipotência
quero presença
quero cadência
quero vínculos sem conveniência
Quero olhar alguém nos olhos
e não sentir mercado
quero conversas onde o silêncio
não seja interpretado como falha
Talvez liberdade seja isto:
não precisar de representar personagem
para merecer companhia
[Outro]
E depois de tantos excessos…
descobri algo quase desconcertante:
o auge não era conquistar o mundo
era conseguir permanecer humano
dentro dele