[Verso 1]
Há saturação em cada centímetro desta época
um excesso contínuo de estímulo e escassez de profundidade
gente hiperconectada
e emocionalmente incontactável
Consumimos ruído com a devoção de um ritual moderno
opiniões instantâneas
afectos descartáveis
e promessas fabricadas para durar menos do que uma madrugada
Entretanto a mente intoxica-se lentamente
não apenas por substâncias
mas por comparações incessantes
velocidade compulsiva
e carência de silêncio interior
[Refrão]
Intoxicado…
não pelo vinho
mas pela exaustão de existir sem pausa
Pelo excesso de mundo
e pela ausência de significado
Porque há venenos
que entram pela alma
sem deixarem vestígio no sangue
[Verso 2]
Há pessoas a respirar ansiedade como hábito fisiológico
a normalizar insónia emocional
como se viver permanentemente em tensão
fosse sinónimo de ambição contemporânea
Mas o corpo memoriza tudo
o esgotamento
a sobrecarga
a inquietação crónica
e até as palavras que fingimos não sentir
Por isso afasta-te periodicamente do tumulto
ouve o rumor das árvores
demora-te numa conversa sem urgência
aprende novamente a contemplar sem consumir
[Ponte]
Nem toda a produtividade é virtude
Às vezes o espírito apenas necessita
de descompressão
quietude
e horizonte
[Verso Final]
Talvez a grande epidemia silenciosa
não seja tecnológica nem económica
mas afectiva
Uma incapacidade crescente
de sentir presença genuína
num mundo obcecado por desempenho
E no meio disto tudo
há quem continue a procurar cura
em excessos adicionais
sem perceber que certas intoxicações
só desaparecem quando regressamos ao essencial
[Outro]
Respira fundo…
nem tudo o que te rodeia
merece entrar dentro de ti