As correntes da cidade pesam-me nas costas,
feitas de promessas tortas e respostas mortas,
dias iguais empilhados atrás de portas,
e sonhos esmagados por rotinas impostas.
Acordo cedo com o peito ainda cansado,
mente acelerada, coração apertado,
toda a gente corre mas ninguém sabe pra que lado,
parece que viver virou sobreviver calado.
Carrego pressão como cimento nos ombros,
silêncios antigos, discussões e escombros,
olhares frios cruzam-se nos mesmos contornos,
e há almas partidas escondidas nos retornos.
A cidade cobra caro pela permanência,
rouba calma, sono e inocência,
ensina-nos a fingir resistência,
mesmo quando o corpo pede ausência.
Há noites em que o peso quase me dobra,
cada preocupação parece uma obra,
contas, futuro, medo… tudo cobra,
e a cabeça transforma descanso em manobra.
Mas continuo de pé no meio da confusão,
mesmo com ferrugem dentro do coração,
porque há qualquer coisa em mim que diz “não”,
que ainda acredita noutra direção.
E quando o céu escurece sobre os prédios da avenida,
eu sinto o peso inteiro desta vida,
mas também sinto uma força escondida…
como quem aprendeu a carregar correntes sem perder a alma perdida.