Molhei a pena onde o destino perdeu a cor,
Foi aí que o papel ganhou tinta da dor.
Cada risco é um recibo que a vida veio cobrar,
Não há verso sem ferida... nem ferida sem sarar.
A calçada sabe quantas solas eu gastei,
Quantas noites mastiguei o que nunca contei.
Vi o brilho enferrujar por detrás de um fato novo,
Há quem vista ouro por fora... e leva ruínas por dentro do corpo.
Não foi a sorte que escreveu o nome no caderno,
Foi o frio a ensinar-me o peso de cada Inverno.
Página dobrada escondia é outra sentença,
Há cicatrizes que rimam melhor do que qualquer recompensa.
Escrevo com tinta da dor,
não para pedir perdão,
Fico para deixar gravado o peso de cada estação.
Se a vida me deu espinhos, fiz deles caligrafia,
Porque até a noite mais funda acaba por dar o dia.
Escrevo com tinta da dor,
sem ouro nem vaidade,
Cada sílaba transporta o preço da realidade.
Se um verso tocar alguém que nunca falou de si,
Então vale cada golpe que o destino deixou aqui.
O tempo é um ladrão de luvas... não deixa impressão,
Rouba-nos gente, memória, idade e convicção.
Há abraços que ainda aquecem depois de terminarem,
E há despedidas que ficam muito depois de acabarem.
Nem toda a queda faz barulho quando bate no chão,
Há quem desabe por dentro... sem mover um tostão.
Aprendi que o respeito não cabe em vitrina nenhuma,
Vale mais um gesto limpo do que mil coroas de espuma.
Não procurei ser herói, procurei manter-me inteiro,
Quando o mundo me queria vendido ao desespero.
Se te perguntarem quem escreveu tudo isto...
Diz apenas que
Não foi um poeta.
Foi um homem...
...que aprendeu a escrever com tinta da dor.