Interrompe esse monólogo corrosivo
essa liturgia interna de presságios sombrios
há pensamentos que se infiltram devagar
e transformam a mente num território inabitável
Nem toda a inquietação é intuição
às vezes é apenas exaustão acumulada
travestida de verdade absoluta
pela repetição compulsiva da angústia
Respira.
Nem tudo o que fracassou anteriormente
merece perpetuidade emocional
há memórias que precisam de sepultura
e não de veneração quotidiana
Deixa de alimentar catástrofes imaginárias
o coração não nasceu para viver sitiado
Há beleza ainda disponível no mundo
mesmo que a tua fadiga momentânea
te impeça de a reconhecer imediatamente
Abandona a necessidade mórbida
de antecipar ruínas antes do tempo
isso não é lucidez
é apenas medo sofisticado em filosofia triste
Sai da espiral autodepreciativa
do hábito quase automático
de transformar cada silêncio
num prenúncio de abandono
Nem toda a distância é rejeição
nem toda a demora significa desinteresse
há pessoas a travar batalhas íntimas
que tu nunca conseguirás cartografar totalmente
Talvez crescer seja isto:
desobedecer aos pensamentos
que tentam convencer-nos
de que não merecemos tranquilidade
Volta a olhar o céu sem pressa
ouve música sem procurar tragédia nas entrelinhas
permite-te existir sem esse policiamento emocional constante
A mente humana tem o estranho talento
de fabricar cárceres invisíveis
e depois convencer-se
de que nasceu para habitar dentro deles
Mas não.
Tu não foste concebido para sobreviver em ruína mental perpétua
Foste feito para respirar,
sentir,
amar,
e recomeçar sem culpa
Por isso…
quando o pensamento escurecer novamente
não acredites imediatamente em tudo o que sentes