[intro]
(Respiração. Passos na madrugada. Silêncio.)
Nasci com ela
Aprendi a defender
TIPOZHIN
EDVERSO
[verso 1]
Pele mulher, primeiro aviso
Vem com manual, vem com aviso
Não pode rir, não pode chorar
Não pode andar, não pode voltar
Roupa que usa é permissão
Decote é convite, dizem, então
Se acontece, a culpa é sua
Porque a noite continua nua
[refrão]
Pele mulher, pele mulher
Corpo público, ninguém vê quem é
Pele mulher, pele mulher
Dizem que é posse, mas ninguém quer
[verso 2]
Na rua, assobio, mão estendida
"Gostosa", "amor", falsa saída
No trabalho, metade do salário
Progrediu? Só por outro cenário
Em casa, dupla jornada pesa
Cuida dos filhos, limpa a mesa
Marido chega, cansaço eterno
Ela descansa? Só no inferno
[ponte]
Quantas voltaram pra casa?
Quantas não voltaram nunca?
Quantas sangram todo mês?
Quantas sangram na rua, sem vez?
[verso 3]
Decisão sobre o próprio ventre
Boca que julgam, mão que não entre
Cabelo, corpo, jeito de ser
Sempre alguém pra dizer o que fazer
Mãe que cria sozinha o filho
Pai ausente, nenhum brilho
Chamam de forte, chamam de guerreira
Mas cansa ser pedra a vida inteira
[refrão]
Pele mulher, pele mulher
Grito abafado, ninguém quer ver
Pele mulher, pele mulher
Medo na rua, medo no lar, medo no ser
[verso 4]
Feminicídio, palavra fria
Número, estatística, todo dia
"Morreu por amor", dizem na tevê
Não era amor, era posse, era fé
Na crença do homem que pode tudo
Que o corpo dela é campo mudo
Que pode bater, pode matar
Pode ajoelhar e depois rezar
[saída]
Pele mulher
Não é não
Pele mulher
Tem coração
Pele mulher
Tem voz, tem vez
Pele mulher
É humana, não posse, não rés
(Respira. Passos. Silêncio. Ela segue.)
EDVERSO
TIPOZHIN