Não bati à porta do amor.
Andava ocupado
a construir silêncio,
a fazer das minhas cicatrizes
o lugar onde dormia.
A vida era um caminho direito.
Até cruzares o olhar no meu.
Nem disseste o meu nome.
Mesmo assim...
alguma coisa em mim
já te conhecia.
Entraste.
Sem pedir licença.
Sem prometer futuro.
Sem fazer barulho.
Entraste onde nem eu chegava.
Quando te foste,
não percebi logo o vazio.
Foi a noite que mo contou.
O relógio deixou de andar.
As palavras começaram a pesar.
Escrevi para não cair.
Rezei sem saber rezar.
Só pedi uma coisa:
"Se isto vier de Ti...
traz-ma de volta."
E voltaste.
Como quem nunca deixou de saber o caminho.
Hoje percebo
que o amor não mora
nos dias perfeitos.
Mora na forma como adormeces,
no teu sorriso quando o sono vence,
na tua mão a procurar a minha
como se o mundo inteiro
coubesse nesse gesto.
Quando chegas...
a rua cala-se.
O tempo abranda.
Tudo perde importância.
Fico só a olhar para ti,
como quem ainda não acredita
que um simples olhar
foi capaz
de mudar uma vida inteira.
Se algum dia me perguntarem
onde começou esta história,
não vou falar de datas.
Vou falar de um olhar.
Porque foi nesse instante
que a minha vida,
sem pedir autorização,
mudou de direção.