Velário na mente, nevoeiro no verbo,
carrego o inferno com postura de inverno,
olhar taciturno, silêncio moderno,
sou liturgia negra num corpo eterno.
Falam de glória, eu vejo ruína,
cada ambição também contamina,
há fome no brilho que o ego assassina,
há dor clandestina por trás da cortina.
Submundo lúcido, estética fria,
versos com fel e melancolia,
sou a insónia da própria cidade,
eco voraz dentro da ansiedade.
Tenho o caos alinhado na fala,
dicção sulfúrica quando a noite cala,
cada compasso parece navalha,
cada memória deixa migalha.
Velário…
alma em estado incendiário,
coração visionário,
olhar crepusculário.
Velário…
som grave, cenário funerário,
amor imaginário,
mas sentimento necessário.
Elegia urbana no topo do fumo,
sou relicário perdido no mundo,
há algo divino no meu vagabundo,
há ouro escondido no mais profundo.
Fui labirinto antes da saída,
fui cicatriz antes da ferida,
há gente viva sem ter vida,
e eu morto por dentro a sentir ainda.
Vocabulário vindo do abismo,
verso litúrgico, quase exorcismo,
flow agressivo mas com lirismo,
cada rima parece cataclismo.
Tenho fuligem dentro do peito,
mas ainda escrevo de forma perfeita,
sou arquitetura imperfeita,
de uma alma que nunca se aceita.
Velário…
alma em estado incendiário,
coração visionário,
olhar crepusculário.
Velário…
som grave, cenário funerário,
amor imaginário,
mas sentimento necessário.