Escrevi o meu nome devagar,
com a mão de quem já tremeu.
Cada letra trouxe um rosto,
cada rosto trouxe o que perdeu.
Houve dias de tinta escura,
frases tortas, papel rasgado,
um futuro prometido a lápis
e um passado mal apagado.
Minha mãe ensinou-me o cuidado,
a rua ensinou-me a desconfiar,
o tempo, esse professor sem pena,
ensinou-me o preço de ficar.
Tenho amigos dentro de fotografias,
tenho ausências sentadas à mesa,
tenho sonhos que ainda respiram
num quarto cheio de incerteza.
Foi com tinta da dor
que escrevi o que sou.
Não escolhi cada traço,
fui eu quem ficou.
Se a vida me sujou as mãos,
também me ensinou a escrever:
há páginas que doem tanto
que nos obrigam a crescer.
Já rasguei algumas cartas
que ainda sabia de cor.
Não por falta de sentimento —
por excesso de amor.
Há coisas que não se perdoam,
há outras que o tempo perdoou.
E há culpas que carregamos
por aquilo que nunca aconteceu.
Hoje escrevo sem apagar,
deixo a mancha fazer parte.
Nem toda a cicatriz é ferida,
nem toda a perda é um desastre.
Sei porque escrevo desta maneira,
e não digo que sou poeta.
Houve coisas que me doeram
e não encontrei outra maneira
de lhes dar uma voz.
A tinta acabou.