Não me ergueram.
Deixaram-me ficar.
No mesmo largo
onde o tempo ganha rugas
e as pessoas perdem pressa.
Tenho tábuas gastas
de tanta verdade pousada.
Há nomes gravados em mim
que já nem as famílias pronunciam.
Conheço o peso
das mãos rachadas pela enxada.
O ranger das botas
antes de entrarem no café.
A poeira colada às calças.
O calor a estalar a cal.
E o olhar de quem responde...
"Vai-se andando."
...quando a vida lhe caiu inteira em cima.
Senta-te.
Não venhas impressionar ninguém.
Aqui...
Até o silêncio aprende
a baixar os olhos.
Vi rapazes partirem
a jurar que nunca mais voltavam.
Hoje regressam devagar.
Como quem pede licença
à rua onde aprendeu o próprio nome.
Vi pais dobrarem o lombo
para endireitarem a casa.
Vi mães esconderem lágrimas
atrás de um "não faz mal."
Foi aqui...
Que muitos perderam tudo.
E foi aqui...
Que aprenderam a recomeçar
sem pedir aplausos.
Porque esta terra
nunca ensinou ninguém
a desistir.
Ensinou...
A aguentar.
Nunca corri atrás da vida.
Foi a vida
que se sentou ao meu lado.
Um dia...
As vozes calam-se.
As portas fecham.
As mãos desaparecem.
Mas fica sempre qualquer coisa.
Um risco na madeira.
Uma beata esquecida.
Uma gargalhada presa ao vento.
Um adeus engolido.
E alguém...
Que volta anos depois.
Passa a mão por mim.
Sorri.
E percebe...
Que nunca foi embora.
Porque há terras
que não vivem no mapa.
Vivem dentro de quem as levou consigo.