Não escrevo para rimar...
Escrevo porque houve noites...
Em que a caneta respirou por mim.
Escrevi-me...
Quando o mundo me queria em branco.
Cada página roubou um peso...
Que o peito já não conseguia guardar.
A folha nunca pediu desculpas...
Aceitou-me inteiro.
Com as mãos a tremer...
Os olhos cheios de inverno.
Há quem esconda cicatrizes...
Eu transformei-as em caligrafia.
Há quem conte dinheiro...
Eu conto as vezes que voltei inteiro.
Não fiz da dor um trono.
Fiz dela uma ponte.
Porque até um rio aprende...
Que nenhuma pedra consegue prender o mar.
Se me vires calado...
Não julgues o silêncio.
Há tempestades...
Que escrevem melhor do que a voz.
Escrevi-me...
Porque a boca fechava...
O peito não.
Cada palavra levou um pouco da escuridão.
Escrevi-me...
Sem pedir licença ao medo.
Se hoje caminho direito...
Foi porque aprendi...
A levantar-me torto.
Conheci gente...
Com bolsos cheios e olhos vazios.
Vi sorrisos impecáveis...
Escondidos atrás de ruínas.
O espelho devolve um rosto.
Não devolve o caminho.
Há quem viva uma vida inteira...
Sem nunca chegar a si.
A pressa vende relógios.
Não fabricou o tempo.
O orgulho ganha discussões.
Perde famílias.
Aprendi mais num abraço verdadeiro...
Do que com aplausos.
E descobri...
Que o carácter faz mais barulho...
Que qualquer fama.
Não escrevo para parecer forte.
Escrevo...
Porque a verdade pesa menos...
Quando encontra uma folha.
Se uma única linha...
Salvar um coração cansado...
Então nenhuma lágrima...
Foi desperdiçada.
Escrevi-me...
Na margem de todos os dias difíceis.
Onde o mundo fazia fracassos...
Eu vi capítulos.
Escrevi-me...
Sem máscaras.
Sem moldes.
Sem pedir permissão para sentir.
E assim no verso...
Escrevi-me.