Devagar, sem deixar, sem parar, sem provar,
fui ficando no lugar onde aprendi a ficar.
Sem correr, sem querer controlar,
coisas que só começam a andar quando paramos de procurar.
Eu queria o mundo inteiro num minuto, num segundo,
pus o peito a trabalhar como se fosse dono do mundo.
Cada erro era um enterro, cada medo um vagabundo,
e eu a cavar no meu nome para encontrar o meu fundo.
Hoje não peço pressa, peço espaço,
um abraço sem prazo, um pedaço de regaço.
Um café mal tirado, um sorriso no cansaço,
uma conversa que começa torta e acaba num abraço.
A vida não avisa quando muda de estação,
não manda uma carta a pedir autorização.
Num dia tens a mão cheia, no outro tens a mão no chão,
até o chão te ensina outra forma de levantar a mão.
Devagar...
Eu já fui rápido demais para perceber,
já disse tudo sem sequer saber.
Já quis partir antes de aprender a permanecer,
já perdi tanta coisa só por medo de perder.
Agora deixo acontecer, sem contrato, sem condição,
se vier, que venha inteiro; se partir, que leve a lição.
Não quero ser dono de ninguém, quero presença e ligação,
amor sem liberdade é só outra forma de prisão.
Onde quero chegar,
Ajudou-me a caminhar.”
Que me falte muita coisa, menos vontade de tentar,
ainda há mundo suficiente para me fazer mudar.
Devagar, sem deixar, sem parar, sem provar,
se a vida me der tempo, eu aprendo a saborear.
Não preciso de chegar para saber que vou chegar,
há viagens que só fazem sentido...
quando deixamos de contar os quilómetros no andar.