[Verso 1]
Passei anos a confundir excesso com destino
a querer possuir o mundo sem possuir abrigo
rodeado de ruído, mas distante de mim próprio
como quem bebe sal achando que mata o vazio
E afinal…
o essencial cabia em coisas mínimas
um café morno ao amanhecer
uma voz tranquila depois do cansaço
alguém capaz de permanecer
Descobri que a alma não pede grandeza
pede repouso
tempo limpo
e alguma delicadeza
[Refrão]
O essencial nunca grita
não invade
não exige palco
Chega devagar
como luz tépida em janela antiga
e reorganiza o coração sem alvoroço
[Verso 2]
Hoje já não idolatro abundâncias
há luxo demais em afectos raros
na cadência lenta das conversas honestas
e nos silêncios que não causam embaraço
Há beleza em existir sem pressa
em ouvir a chuva sem ansiedade
em sentir o corpo desacelerar
sem culpa de parar a cidade
Talvez maturidade seja isto
deixar de correr atrás do extraordinário
e perceber que o milagre verdadeiro
era simplesmente estar vivo e acompanhado
[Ponte]
Porque no fim…
ninguém implora mais aplausos
mais estatuto
ou mais velocidade
As pessoas procuram colo
presença
e serenidade
[Outro]
E quando finalmente compreendi isso…
o mundo continuou igual
mas dentro de mim
tudo ficou mais leve