[Verso 1]
Há humidades que não ficam nas paredes
instalam-se devagar na linguagem das pessoas
na forma fatigada como se olham
e no peso invisível transportado entre divisões silenciosas
Cresci em ambientes saturados de contenção emocional
onde quase tudo era sentido
mas raramente verbalizado
como se demonstrar fragilidade
fosse uma espécie de fracasso hereditário
Então aprendíamos cedo a acumular
ressentimento
exaustão
e afectos mal ventilados
Tal qual casas antigas
que escondem infiltrações atrás da tinta renovada
[Refrão]
Há almas inteiras em estado de humidade crónica
a deteriorarem-se discretamente
sob aparências funcionalmente aceitáveis
Porque nem toda a ruína faz estrondo
algumas acontecem
em absoluto silêncio
[Verso 2]
Conheço gente impecavelmente apresentável
e internamente em decomposição afectiva
pessoas que dominam eloquência social
mas perderam completamente intimidade consigo próprias
A contemporaneidade ensinou-nos performance
mas desaprendeu presença
sabemos impressionar multidões
e simultaneamente falhamos conversas honestas a dois
Entretanto o corpo manifesta tudo
a insónia
a irritabilidade
o cansaço sem causa clínica evidente
e a sensação persistente
de viver emocionalmente enclausurado
[Ponte]
Talvez a saúde da alma
dependa menos de conquistas exteriores
e mais da qualidade atmosférica
dos afectos que habitamos diariamente
[Verso Final]
Hoje procuro espaços respiráveis
gente sem necessidade compulsiva de representar
presenças capazes de acolher silêncio
sem transformá-lo imediatamente em desconforto
Porque a paz verdadeira
não tem exuberância cénica
Tem temperatura humana
escuta limpa
e estabilidade emocional suficiente
para não destruir tudo aquilo que toca
[Outro]
E talvez maturidade seja isto…
abrir finalmente as janelas interiores
antes que as humidades da vida
nos consumam por dentro