Tenho marcas de canivete, datas sem fotografia,
nomes presos na madeira que já ninguém reconhecia.
Vi partidas ao romper da madrugada fria,
e regressos com o peso de quem perdeu a fantasia.
Já ouvi promessas grandes em vozes quase sem idade,
vi rapazes feitos homens a trocar pressa por saudade.
Vi o pó da praça erguer-se, vi mudar a cidade,
mas há olhares que não mudam, só escondem a verdade.
Já senti mãos calejadas de quem lavrou horizonte,
gente que trazia o mundo sem se queixar da própria fonte.
Vi conversas sem aplausos, dessas que fazem a ponte,
entre aquilo que se sonhava e aquilo que somos hoje.
Senta-te.
Não precisas de dizer nada.
Há histórias que chegam primeiro
do que as palavras.
Senta-te.
Deixa o peito descansar.
Há pesos que só aprendem a cair
quando alguém pára.
Vi cartas nunca entregues, fotografias dobradas,
alianças esquecidas, despedidas mal fechadas.
Vi um velho a olhar em frente durante horas paradas,
como se falasse baixinho com presenças já levadas.
Conheço o cheiro da chuva antes de tocar no chão,
o calor das tardes longas, o frio da solidão.
Já vi lágrimas guardadas atrás de uma expressão,
porque nem toda a coragem faz barulho na multidão.
Passam anos, passam rostos, passam modas, passam modas,
mas há coisas que resistem quando todas as portas rodam.
Cada risco nesta pele foi deixado por alguém,
e cada marca que carrego vale mais do que um vintém.
Não sou santo.
Não sou rei.
Não sou monumento.
Sou apenas testemunha
de tudo o que o tempo levou
e de tudo o que ficou cá dentro.
Vi miúdos a sonharem com cidades gigantescas,
e homens feitos regressarem à procura das raízes velhas.
Vi abraços que salvaram mais do que muitas promessas,
e silêncios que partiram mais do que pedras densas.