Quando a maré baixou... ninguém ficou a olhar,
eu vi conchas esquecidas... onde o medo ia passar.
Havia sal nas palavras... e areia na decisão,
Num fundo que nunca mente... quando enfrenta a erosão.
Vi navios sem bandeira... ancorados no depois,
um farol cansado de guiar quem nunca foi.
Aprendi que o horizonte não pertence ao olhar,
pertence a quem aceita... Sem controlar o mar.
Se tudo recuar...
não recues também.
Há caminhos
que só aparecem
quando a água
vai além.
Maré baixa...
leva o excesso de mim.
Deixa apenas
o que sabe resistir.
Maré baixa...
não me venhas esconder.
Se tiras o oceano...
ensina-me
a viver.
Há gaivotas que regressam sem prometer direção,
pedras que conhecem o peso de cada estação.
Nem toda a perda é derrota... nem toda a espera é em vão,
há marés que limpam a alma... sem pedir explicação.
Hoje já não conto vagas... conto aquilo que ficou,
porque a areia guarda nomes que o oceano não levou.
Se a calma demora tanto... também sabe recompensar,
quem aprende a ouvir o silêncio... antes do mar voltar.
Quando a maré subir...
talvez ninguém repare
naquilo que mudou.
Irei saber.
foi na maré baixa...
que encontrei
o lado de mim
que a água escondia.
Numa maré baixa a escrever poesia.