Do Alentejo trago o vento seco na voz
pó nos ténis, mundo inteiro contra nós
aprendi cedo que o silêncio também grita
e que há gente viva com a alma já perdida
No meu âmago mora um campo queimado
memórias tortas, céu pesado
cada cicatriz parece um mapa antigo
cada queda matou alguém dentro de mim comigo
Mas eu continuo
olho frio, coração aceso
carrego o peso sem mostrar o peso
porque quem revive muitas vezes na vida
já não teme a ferida
Noite funda, pensamentos à solta
há dores que o dinheiro nunca desmonta
há guerras que ninguém vê por fora
mas por dentro deixam cidades sem aurora
Eu vi amizade virar fumo
promessas afundadas no consumo
vi amor desaparecer sem som
e gente boa perder-se sem razão
Mesmo assim…
eu não abaixo a cabeça
a vida bate, eu devolvo a sentença
trap no grave, verdade na escrita
cada barra minha vem da alma aflita
O meu âmago não mente
foi moldado na falta e no dente
sou filho da poeira e da cicatriz
sobrevivi vezes demais pra fingir que sou feliz.