Estamos frios, néon gasto, sirenes na madrugada,
miúdos crescem cedo demais sem pedir licença à estrada,
cada prédio é um processo, cada esquina uma cilada,
e a polícia passa lenta mas a fome vem armada.
Bazei cedo da inocência, vi o mundo sem filtro,
putos vendem o futuro por respeito de um quilho,
há mitras na estação com olhar de precipício,
e mães a rezar baixinho para o filho fugir do vício.
Noites longas no cimento, conversas em tom bélico,
cada passo calculado tipo jogo estratégico,
mentalidade de guerra num cenário periférico,
Portugal turístico por fora, por dentro é catastrófico.
Bairros sociais, códigos, lealdade em falência,
há quem venda o próprio sangue só por falsa aparência,
putos querem AMG sem saber o que é paciência,
e há manos geniais presos na sobrevivência.
Rimo denso, sem romance, sem estética TikTok,
isto é música de cave com pressão no bloco,
rimas sujas, engenharia verbal em modo shock,
cada barra cai pesada tipo grades a fechar, sou lock.
Vejo falsos revolucionários a vender moralidade,
mas nunca pisaram bairros nem sentiram ansiedade,
falam da rua em podcasts com pose de autoridade,
eu vi chavalos cair cedo por falta de oportunidade.
Há berlindes no asfalto, mas já ninguém joga limpo,
cada um tenta subir mesmo que afunde outro no instinto,
amizades por interesse, respeito vendido a troco,
e o orgulho no bairro às vezes vale mais que o corpo.
Vi putos brilhantes virarem sombras da cidade,
pais ausentes, mães cansadas, falta de estabilidade,
a rua dá-te estatuto mas rouba-te identidade,
e o sistema fecha portas enquanto vende igualdade.
Flow cirúrgico, linguagem crua e calculista,
mente fria, olhar atento, perfil niilista,
sou produto da pressão urbana e realista.