Arquivei o horizonte na gaveta das marés,
A ferrugem alfabetiza o ferro de uma só vez.
A chuva nunca molha a pedra. Mostra uma superfície,
cada gota é um escultor sem nome nem artifício.
Trago a cal dos séculos presa ao vinco da camisa,
há poeiras que conhecem melhor a História que a própria justiça.
O vento nunca empurrou moinhos para convencer paisagens,
não escrevo canções,
altero a direção das linguagens.
As ombreiras das casas decoram os ombros de quem parte,
Por portas que envelhecem por excesso de verdade.
O barro não pediu para vestir uma muralha,
foi a mão que aprendeu quando perdeu a batalha.
A madrugada não amanhece. Quanto não vale a claridade,
por ruas que guardam passos sem exigir identidade.
Nem toda a raiz procura água.
Procuram tempo,
E o que não se vê precisa de fundamento.
Trago cardos no vocabulário
e refugados na respiração,
sílaba num verso inteiro por cada estação.
Não lapido palavras. Curioso por veios antigos,
silêncio nos museus, eu prefiro o fragor dos vestígios.
As sementes mais teimosas escolhem fendas no cimento,
permanência nasce de um conforto lento.
Não procuro deixar pegadas, isso qualquer um consegue,
quero obrigar o chão a recordar quem o ergue.
Há obras que ocupam estantes, outras ocupam a memória;
eu escrevo para deslocar o eixo da própria história.