Estou em Nova York
Mas a alma ficou na Damaia
Arranha-céus a brilhar
Enquanto a minha gente ainda paga a renda com suor e falha
O dólar fala alto, o euro também
Mas o capital não tem pátria, só tem dono
Vi o Rockefeller Center iluminado
E pensei nos miúdos que nem têm luz em casa no bairro
Aqui o sonho americano ainda se vende
Em cartazes, em Netflix, em sorrisos de plástico
Mas eu vim de onde o sonho é sobreviver ao dia
Onde o “amanhã” é um luxo que poucos conseguem comprar
Estou em Nova York
Com o casaco fino e o bolso vazio de certezas
Ouço sirenes à noite
E lembro-me das mesmas sirenes que ecoam em Lisboa
Só muda a língua, o sistema é o mesmo
Eles falam de liberdade
Enquanto constroem muros mais altos
Falam de oportunidade
Enquanto o elevador social está avariado há décadas
Eu caminho pela 5th Avenue
Com o peso da história nas costas
Filho de quem veio de São Tomé
Neto de quem nunca teve voz
E agora eu tenho microfone
Então eu uso
Estou em Nova York
Mas não vim pedir permissão
Vim só confirmar
Que o mundo inteiro gira em torno do mesmo eixo:
Quem tem, manda
Quem não tem, dança
E eu continuo a rimar
Porque enquanto houver alguém a sofrer em silêncio
A minha voz não descansa.