Prometa que não volta
mas volta todo dia
no cheiro do café
e na porta vazia.
Vi teu nome na mensagem que não era minha
letra apressada, desculpa esfarrapada
guardei o copo que você esqueceu
ele ainda sua na mesa, eu nem sequei.
A gente aprendeu a dividir tudo errado:
eu, a culpa; você, o atalho.
Traição não vem de um beijo só,
vem do jeito que você praticou sumir
depois ficou, como se nada fosse
feito de vidro — eu pisei sem ver.
E o pior é que ainda sei teu truque:
me chama de lar pra depois fechar a luz.
Apaguei as fotos, deixei as digitais
no espelho embaçado escrevi “não volta”
mas a mão traiu o verbo
e riscou só “volta”.
Você me deu mapa e tirou o norte,
agora eu ando igual turista
em próprio quarto, sem bagagem,
coleciano fechaduras.
Traição não vem de um beijo só,
vem do dia seguinte em que tu age normal
enquanto o meu relógio engole os segundos
que você me prometeu.
E se um dia eu rimar teu nome em canção,
não é saudade — é só o jeito
de transformar veneno em melodia,
pra cuspir sem engolir.
Prometa que não volta…
(agora sou eu que minto).