Luz baixa, rua molhada, silêncio a passar,
um fado sem guitarra a tentar respirar,
olhares cruzam-se sem se tocar,
e o tempo esquece-se de andar.
Há cheiro a memória no ar da cidade,
passos lentos dentro da saudade,
ninguém pergunta o que é verdade,
quando o coração fala em metade.
Ela encosta o mundo no meu olhar,
como quem sabe o que vai ficar,
não diz nada, mas faz mudar
tudo o que eu julgava controlar.
E eu perco-me no gesto mais simples,
num quase beijo que não existe,
num talvez que insiste
em ser tudo o que o destino resiste.
Foi só uma balada num instante perdido,
um amor sem nome, mas sentido,
ficou no peito, não foi fingido,
ficou em nós, mas não foi vivido.
Foi só um momento a acontecer,
entre o ficar e o desaparecer,
e tudo o que eu não soube dizer
vive aqui sem nunca morrer.
A cidade respira devagar,
como se soubesse onde vais ficar,
e eu preso no teu caminhar,
sem coragem de te parar.
Há uma música que não se ouve,
mas sente-se quando tudo se move,
entre o sim e o não que se resolve
num olhar que nunca se dissolve.
E se isto for só imaginação,
prefiro viver nessa ilusão,
do que perder esta sensação
de te ter perto no coração.
Porque há amores que não precisam de ser,
só precisam de acontecer,
mesmo que fiquem sem nascer,
mesmo que aprendam a desaparecer.
Foi só uma balada num instante perdido,
um amor sem nome, mas sentido,
ficou no peito, não foi fingido,
ficou em nós, mas não foi vivido.
Foi só um momento a acontecer,
entre o ficar e o desaparecer,
e tudo o que eu não soube dizer
vive aqui sem nunca morrer.