[Verso]
Não me viste fugir.
Viste-me deixar de caber.
Passei anos
a dobrar as asas
para não tocar no teto
das expectativas dos outros.
Chamavam-lhe juízo.
Eu chamava-lhe
uma prisão bem decorada.
Aprendi cedo...
Há cadeados
que não fecham portas.
Fecham possibilidades.
E há pessoas
que passam uma vida inteira
a confundir hábito
com liberdade.
Foi preciso desaprender
o idioma do medo.
Porque a coragem
nunca grita.
Muda de morada.
[Refrão]
Já não vivo
fora da lei.
Vivo fora da gaiola.
Onde o risco
deixa de ser ameaça
e passa a ser horizonte.
Se me vires voar,
não foi porque ganhei asas.
Foi porque deixei
de carregar
a gaiola às costas.
[Ponte]
Nunca quis ser diferente.
Só me recusei
a ser uma cópia
bem aceite.
Há quem colecione certezas.
Eu coleciono perguntas.
Porque uma mente aberta
não cabe
numa gaiola fechada.
[Final]
Se isto parece loucura...
é porque a liberdade
nunca fez sentido
para quem aprendeu
a amar as grades.