Ando a pensar
que talvez ninguém conheça ninguém
nem o homem que se barbeia ao espelho
todas as manhãs
conhece por inteiro
o rosto que leva vestido
há máscaras feitas de silêncio
outras de gargalhadas
outras ainda
de frases decoradas
para atravessar o mundo sem feridas à mostra
Cá no Alentejo
onde a tarde se estende
como um pensamento sem fim
aprendi que até os sobreiros
guardam segredos na casca
e que a solidão
não é ausência
é uma conversa antiga
entre a alma e a planície
Vejo gente carregada de aparências
como quem leva jarros de barro rachado
cheios de água invisível
um toque apenas
e tudo transborda
mas ninguém fala disso
preferem a maquilhagem da rotina
o verniz da certeza
a liturgia do costume
E eu cá desconfio
que somos todos um enigma ambulante
um labirinto de bruma e memória
uma embarcação sem cartas náuticas
a navegar por dentro de si própria
há noites
em que o pensamento faz círculos
como andorinhas antes da chuva
e a verdade parece perto
quase ao alcance da mão
mas escapa-se
com a elegância de um veado
a desaparecer no montado
um ziguezague de identidades
uma romaria de versões nossas
umas perdidas
outras por nascer
e no fim
quando a poeira assentar sobre os caminhos
e o tempo fechar os portões da herdade
talvez reste apenas isto:
a coragem rara
de tirar a última máscara
e ficar sozinho
frente ao mistério.