Nasci num sítio onde o pouco era muito,
onde um prato na mesa já parecia fortuna,
aprendi que o mundo sorri quando tens lucro
e fecha a porta quando a carteira está nua.
Vi homens venderem princípios por migalhas,
vi promessas morrerem dentro de escritórios,
há quem fale de honra atrás de medalhas
e faça contas ao sangue dos outros.
Eu não vim limpo, vim cheio de marcas,
com noites mal dormidas coladas à pele,
há quem tenha medo de sujar as mãos,
eu tenho medo é de ficar sem elas.
Isto tem preço, tudo tem preço,
cada escolha cobra juros no peito,
queres subir? Então paga o acesso,
ninguém te oferece lugar à mesa.
Já vi amizade mudar de sotaque
quando apareceu dinheiro na conversa,
o abraço ficou curto, o olhar ficou distante,
e a lealdade passou a vir com fatura.
Não me fales de mérito sentado num trono,
há gente a contar moedas para jantar,
há quem compre respeito pelo tamanho do nome
e não consiga comprar quem o queira abraçar.
Eu já perdi mais do que conto aos outros,
já engoli orgulho para manter a cabeça,
não foi a vida que me tornou louco —
foi perceber quanta gente se vende depressa.
Isto tem preço, tudo tem preço,
cada escolha cobra juros no peito,
queres subir? Então paga o acesso,
ninguém te oferece lugar à mesa.
Agora venham cobrar o que quiserem,
não vendo o que ainda me resta,
se querem o meu lugar, que o mereçam,
eu não nasci para baixar a cabeça.
E quando cair a última ficha,
quando o dinheiro deixar de mandar,
quero saber quem fica na sala
quando já não houver nada para ganhar.