São duas da manhã…
Não tenho fome.
Tenho… larica.
Abro o frigorífico, faço uma vistoria,
há meio limão — grande biografia.
Um queijo esquecido, já perdeu a alegria,
olho para ele… ele olha para mim…
isto é democracia.
Vou à despensa, procuro uma saída,
encontro três bolachas de outra vida.
Uma sabe a ontem, outra sabe a nada,
a terceira desapareceu…
foi uma decisão tomada.
E eu digo: “Só uma coisa,
qualquer coisa, coisa pouca…”
Cinco minutos depois
já estou a negociar com a torradeira rouca.
É larica, larica,
bate à porta e não explica.
É larica, larica,
uma fome que se multiplica.
Diz-me “come só um bocadinho”,
eu acredito… que perigo.
Quando dou por mim,
já estou a jantar outra vez comigo.
Vou buscar pão — o pão chama pelo queijo,
o queijo chama o fiambre, já nem vejo o que vejo.
O fiambre chama o molho,
o molho chama a batata,
a batata olha para mim:
“Então, hoje quem é que manda?”
Faço contas à consciência,
ela pede contenção.
Eu respondo com um garfo
e uma enorme convicção.
Na televisão, meia-noite,
um anúncio de hambúrguer.
Aquilo não é publicidade,
é terrorismo gastronómico em HD.
Ai larica que me assalta,
sem convite, sem razão…
entra pela minha casa
e instala-se no coração.
Não quero luxo nem fortuna,
nem banquete de rei mouro…
quero só qualquer coisinha
que tenha queijo derretido por cima de tudo.
É larica, larica,
bate à porta e não explica.
É larica, larica,
uma fome que se multiplica.
Diz-me “come só um bocadinho”,
eu acredito… que perigo.
Quando dou por mim,
já estou a jantar outra vez comigo.
Fecho o frigorífico.
Prometo: acabou.
Dou três passos…
Volto atrás.
Larica voltou.