[Verso 1]
Há dias em que a mente se adensa
como nevoeiro sobre campina fria
um raciocínio a girar sem clemência
até confundir prudência com agonia
Começa subtil — quase imperceptível —
uma frase breve, um receio diminuto
e subitamente o pensamento multiplica-se
até o próprio silêncio parecer abrupto
Mas escuta:
nem toda a apreensão merece altar
nem cada inquietação transporta profecia
há fadigas que apenas reclamam repouso
e não interpretação obsessiva
[Refrão]
Interrompe a vertigem interior
não concedas soberania ao temor
O espírito também necessita de arejamento
de pausa, horizonte e desaceleração
Porque insistir na mesma ferida
não lhe concede entendimento
apenas prolonga o sofrimento
[Verso 2]
Há quem transforme prudência em cárcere
e vigilância em modo de existir
como se prever todos os infortúnios
impedisse a vida de ruir
Mas a serenidade raramente visita
mentes convertidas em tribunal
onde cada gesto é examinado
por um juiz excessivamente brutal
Abre a janela.
Vai ouvir o rumor do vento
reconhece o tacto morno da demora
há sabedorias discretas
naquilo que desacelera sem alarde
[Ponte]
Nem tudo exige resolução imediata
Há questões que amadurecem
como fruto tardio
quando lhes concedemos distância
[Verso Final]
Talvez o erro esteja na insistência
em traduzir cada sombra em sentença
quando existir também pressupõe incerteza
e alguma convivência com a surpresa
Não tornes permanente
aquilo que apenas atravessa
nem confundas um instante adverso
com a arquitectura inteira da existência
[Outro]
Às vezes…
o primeiro gesto de liberdade
é simplesmente parar de discutir
com a própria mente