Somos trocados quando a conta apertou,
porque alguém não deu, e outro levou,
porque há quem nasça com o prato servido
e quem faça do pão motivo.
Somos trocados de noites mal dormidas,
de portas fechadas, de bocas feridas,
somos o preço de certas escolhas,
o resto das voltas, das vidas, das folhas.
Somos pouco quando o mundo quer muito,
somos muito quando falta quase tudo,
somos feitos do “depois eu vejo”,
do “não posso”, do “talvez”, do desejo.
somos pressa, outros prudência,
outros somos ausência,
uns dão a mão, outros dão desculpas,
uns carregam culpas que nem são suas.
Somos trocados.
Trocados da vida.
Daquilo que falta,
daquilo que fica.
Somos trocados.
Trocados de nós.
Do que dizemos,
do que fazemos,
quando ninguém ouve a nossa voz.
Somos porque temos,
somos porque falta,
porque a porta abre,
porque a porta tranca,
porque alguém ensina,
porque alguém não ensina,
porque há quem levante
e há quem se conforme.
Somos pedra, varanda, esquina,
moeda contada, mão que partilha,
o velho conselho, a nova mania,
o “deixa lá isso” e a teimosia.
Somos o que fazemos quando ninguém vê,
o que recusamos, o que escolhemos ser,
somos o medo que vira cautela,
ou a cautela que se perde á janela.
Somos trocados.
Trocados da vida.
Daquilo que falta,
daquilo que fica.
Somos trocados.
Trocados de nós.
Do que dizemos,
do que fazemos,
quando ninguém ouve a nossa voz.
Somos razão, impulso, defeito, virtude,
somos fome, fartura, desejo, atitude,
somos “não” quando era mais fácil dizer “sim”,
somos começo se nos julgam no fim.
Somos trocados.
Trocados da vida.
Daquilo que falta,
daquilo que fica.
Somos trocados.
Trocados de nós.
Do que dizemos,
do que fazemos,
quando ninguém ouve a nossa voz.