Acordo às três da manhã sem motivo aparente,
a casa muda de forma quando não há gente,
o silêncio fica denso, quase consciente,
e o sono abandona-me lentamente.
Vou até à cozinha descalço e cansado,
céu preto no vidro, o monte adormecido e calado,
faço café sem fome, fico ali parado,
como se tivesse alguma coisa a ser julgada ao meu lado.
Pensamentos em espiral, memória corrosiva,
caras que já perdi voltam de forma viva,
cada erro reaparece numa versão mais agressiva,
e a consciência nunca dorme… só fica inativa.
Há noites em que falo sozinho sem notar,
ou talvez fale com Deus só para não rebentar,
pergunto-lhe porque é que a cabeça não sabe parar,
e porque é que certas dores aprendem a disfarçar.
Lembro-me de ser miúdo sem peso no olhar,
antes da vida ensinar o que custa carregar,
antes de perceber que crescer é acumular,
silêncios que ninguém consegue decifrar.
O relógio faz tic tac como provocação,
e cada segundo parece ampliar a solidão,
há um vazio elegante dentro do coração,
tipo casa abandonada cheia de decoração.
No Alentejo a madrugada parece infinita,
o vento lá fora soa quase como visita,
há qualquer coisa na noite que me ressuscita,
e ao mesmo tempo me parte de forma esquisita.
Pego no telemóvel, começo a escrever à toa,
frases soltas, cicatrizes, raiva que ecoa,
porque há coisas que o peito já não perdoa,
e a caneta entende dores que a boca não entoa.
Tiga, num olhar perdido no teto do quarto,
a tentar perceber quando foi que fiquei farto,
há versões minhas espalhadas em cada ato,
e nenhuma delas sabe preencher o espaço.
Talvez isto aconteça a mais gente do que parece,
talvez toda a gente esconda o peso que enlouquece,
há batalhas silenciosas que ninguém reconhece,
e noites em que até respirar custa e acontece.
Depois o céu clareia devagar sobre o monte,
os pássaros começam a rasgar o horizonte,
e eu continuo acordado, cansado, mas de frente,
como quem sobreviveu outra vez à própria mente.