Passei a vida a negociar com o amanhã,
Como se o tempo assinasse contratos à manhã.
"Depois telefono..." "Depois eu trato..."
O destino ouviu tudo... e ficou calado.
Guardei abraços na prateleira da pressa,
Como quem pensa que o amor não tem data de validade.
Troquei domingos por relógios,
E o relógio nunca me agradeceu.
Comprei sapatos...
Esqueci-me dos caminhos.
Comprei cortinas...
Esqueci-me da janela.
Aprendi a decorar a casa...
Sem nunca aprender a morar em mim.
E se amanhã...
For só uma palavra mal habituada?
E se amanhã...
Nunca chegar à morada?
Quem é que veste os beijos que ficaram por vestir?
Quem é que acorda os sonhos...
Que adormeceram antes de existir?
Há pais à espera de uma visita.
Há filhos à espera de um pedido de desculpa.
Há amigos enterrados...
Debaixo de mensagens por responder.
O orgulho nunca perdeu uma discussão...
E perdeu famílias inteiras.
O dinheiro compra colchões...
Nunca comprou descanso.
E a pressa...
Nunca viu um pôr do sol até ao fim.
Dizem que o tempo cura.
Mentira.
O tempo...
Só mostra aquilo que decidimos não tratar.
Um dia...
Sem aviso.
Sem ensaio.
Sem repetição.
Alguém vai pronunciar o nosso nome...
Pela última vez.
E o mundo...
Nem abranda um segundo.
Por isso...
Hoje...
Liga.
Abraça.
Perdoa.
Escreve.
Chora.
Ri.
Ama sem pedir troco.
Com uma pergunta...
Que ninguém consegue responder.
**E se amanhã...**
...for tarde demais?