[Verso 1]
Acordo tarde, luz cinzenta na persiana
cafè frio, madrugada ainda humana
há um barulho estranho dentro da semana
como se a vida tivesse ferrugem na engrenagem
Saio sem destino, casaco amarrotado
cidade acordada, eu meio desligado
há gente a correr pra todo o lado
e eu só quero um sítio onde o peito fique calado
Entro num café velho perto da estação
um velho olha pra mim sem expressão
e diz “rapaz, ninguém vence a solidão
só aprendemos a levá-la pela mão”
[Refrão]
E eu fiquei nisso o dia inteiro
como fumo preso num cinzeiro
meio vivo, meio passageiro
a tentar encontrar-me no nevoeiro
[Verso 2]
Escrevo frases tortas no vidro embaciado
nomes inventados, futuro improvisado
há qualquer coisa em mim que ficou parado
entre o que eu sonhava e o que fui deixando
Às vezes penso em fugir sem dizer
trocar de nome, cidade, amanhecer
ver se longe daqui consigo perceber
porque é que há gente cansada antes de viver
Mas depois vem o vento do fim da tarde
e há qualquer paz triste que ainda arde
como se o mundo, mesmo covarde
ainda tivesse beleza em alguma parte
[Outro]
E talvez a vida seja isto
andar perdido sem fazer barulho
até encontrar um instante pequeno
que nos devolva o orgulho