Ferro frio. Madeira gasta.
A praça sabe quem falta.
O sol racha a cal das paredes...
nunca a raiz da malta.
Boina puxada à testa.
Café curto. Voz contida.
Há quem traga o mundo às costas...
e lhe chame apenas "vida".
As botas entram com barro.
As mãos chegam com calos.
Ninguém mede um homem
pelos euros que leva nos bolsos gastos.
Aqui a pressa perde sempre.
O tempo senta-se primeiro.
Há quem fale uma manhã inteira...
sem dizer o que vai no peito.
Senta-te.
Não venhas provar quem és.
Nesta praça...
o respeito chega
antes do nome.
Senta-te.
O vento conhece
histórias
que ninguém escreveu.
Ainda há um risco na madeira...
feito por dois miúdos sem idade.
Prometeram conquistar o mundo...
o mundo roubou-lhes metade.
O relógio bate as horas.
As cigarras fazem sentença.
O calor derrete a tarde...
não derrete a consciência.
Há um velho que passa devagar.
Nem precisa de falar.
O silêncio à volta dele...
já aprendeu a escutar.
O pó levanta da estrada.
A memória levanta comigo.
Há terras que nunca se deixam...
ficam sempre dentro do umbigo.
Não conto pessoas.
Conto regressos.
Porque partir...
qualquer um parte.
Voltar...
é que pesa.
Senta-te,
aqui disseram-me:
"respeita a palavra."
Porque um homem sem palavra...
vale menos
do que um banco vazio
neste largo esquecido.
Aprendi que a pobreza
nem sempre veste remendos.
Às vezes veste gravata.
Sorri.
Aperta-te a mão...
e pode te deixar sem nada.
Senta-te
Eu fico aqui.
Onde a praça sabe
nomes dos antigos.
Senta-te,
aqui cada pedra
guarda um segredo.
E cada banco...
Tem mais memórias
que muitos livros.
Se algum dia passares por mim...
Senta-te.
Não perguntes quem eu sou.
Pergunta...
quem teve coragem
de ficar.
Porque há lugares
que não se medem em metros.
Ficam no seu lugar,
medem-se...
pelas vidas
que deixaram ficar nelas
Senta-te.
Encontras histórias belas.