Hoje eu não vim pedir nada.
Só vim falar contigo.
Porque acho que finalmente percebi
que até a dor teve propósito.
Obrigado pelas portas fechadas
que eu amaldiçoei em silêncio.
Pelas noites sozinho
em que eu achei que o mundo tinha esquecido o meu nome.
Obrigado pelas pessoas
que eu quis que ficassem…
E tiveram de ir.
Na altura eu não percebi.
E hoje percebo:
nem tudo o que parte é castigo.
Às vezes é direção.
E mesmo perdido,
Tu nunca me largaste.
Mesmo quando eu me afastei de mim.
Então obrigado,
pelos meus pecados bonitos.
Pelas quedas que me ensinaram
a levantar sem fazer barulho.
Obrigado, pelas lágrimas escondidas,
pelas guerras dentro do meu peito.
E no meio do meu defeito
Tu estavas a moldar quem eu sou.
E hoje eu sei:
há dores que não vêm para destruir.
Vieram para acordar a minha alma.
Obrigado por eu sentir tanto.
Mesmo quando dói.
E eu sei que há pessoas
que não vão perceber
o que é amar alguém de verdade.
Eu já tentei fugir do coração.
Já tentei ser frio.
E fui feito intenso demais
para viver pela metade.
Talvez isso venha de ti.
Talvez venha só de Ti.
Talvez seja herança do céu
essa vontade de sentir.
Não quero vingança.
Não quero respostas.
Não quero que alguém volte.
Só quero paz.
Aquela paz
que finalmente aceita
que tudo teve um motivo.
Obrigado,
até pelas despedidas.
Porque algumas pessoas
não vieram para ficar.
Vieram para acordar partes minhas
que estavam adormecidas.
E se um dia perguntarem
se sobrevivi ao escuro…
eu irei dizer:
“foi Deus.
Mesmo quando eu não percebia.”
Hoje eu não tenho tudo.
Tenho consciência.
E talvez isso
seja o começo da luz.