No bairro esquecido da cidade, onde as casas de chapa gemem com o vento e a areia entra pelas portas como visita diária, vivia Zuneidy. Era jovem, mas o peso da vida já lhe curvava os ombros. Órfão desde cedo, aprendera que em Moçambique nem sempre quem trabalha duro colhe paz — às vezes colhe apenas mais um dia para sobreviver.
Zuneidy acordava antes do sol. Saía com o estômago vazio e voltava com o corpo cansado, mas o coração limpo. Ajudava vizinhos, respeitava os mais velhos e sonhava, em silêncio, com uma vida onde o medo não fosse companheiro constante.
Nessa noite, a lua estava escondida. As ruas estavam mudas, como se soubessem o que ia acontecer. Zuneidy voltava para casa depois de um dia longo. Apertava o casaco fino contra o peito quando ouviu passos atrás de si. Passos apressados… e depois, o som metálico que todo moçambicano reconhece sem precisar ver: uma catana sendo arrastada.
O coração de Zuneidy bateu forte. Parou. Pensou em correr, mas as pernas não obedeceram. Pensou em falar, explicar que não tinha nada, que só tinha a própria vida — mas a noite não escuta palavras de pobres.
A lâmina brilhou por um segundo. Não era raiva pessoal. Era fome, desespero, injustiça acumulada. Zuneidy sentiu o golpe como se o mundo tivesse se partido ao meio. Caiu na areia fria, olhando para o céu escuro, perguntando-se em que momento viver se tornou um risco tão grande.
Enquanto o sangue escorria lentamente, lembrou-se da mãe sorrindo, dos sonhos pequenos que guardava: uma casa melhor, um trabalho digno, dormir sem medo. A catana caiu no chão, mas o dano já estava feito. O agressor fugiu, e a noite voltou ao silêncio — um silêncio pesado, cúmplice.
De manhã, o bairro acordou como sempre. Crianças correram, mulheres varreram a areia, homens seguiram para a luta diária. Só Zuneidy não acordou. Tornou-se mais um nome sussurrado, mais uma história triste contada à porta de casa.
Lição: Em Moçambique, a catana não mata sozinha. Quem mata também é a pobreza, o abandono e