Não sou feito de cidade grande
nem de nome alto na parede.
Sou feito de vento que entra devagar
e fica mais tempo do que devia.
---
Há pedra antiga aqui no olhar,
não por peso…
mas por memória.
Coisas que não se apagam,
mesmo quando ninguém pergunta.
---
Chamam-lhe litoral Alentejano.
Eu chamo-lhe terra que aprendeu
a falar com o mar sem perder o sotaque.
---
Vi castelos a fingir que dominam o tempo,
mas até o tempo passa ao lado deles
como quem já não se impressiona com paredes.
---
Há ruínas que não caíram.
Só decidiram ficar quietas.
Miróbriga ensinou isso —
que há mundos inteiros
que continuam a existir
mesmo depois de ninguém olhar.
---
Aqui o trabalho não pede fotografia.
Pede repetição.
Dia após dia
até o gesto deixar de tremer.
---
Não há estatuto nisto.
Há chão.
E o chão não discute.
Só aguenta.
---
Se quiseres perceber quem sou,
não perguntes o nome.
Pergunta ao silêncio da terra
o que ela faz com quem insiste.
---
E se ainda assim não entenderes…
volta quando o vento estiver mais lento.
Ele costuma explicar melhor do que eu.