Tenho marcas de canivete, datas sem fotografia,
nomes presos na madeira que já ninguém reconhecia.
Vi partidas ao romper da madrugada fria,
e regressos com o peso de quem perdeu a fantasia.
Já ouvi promessas grandes em vozes quase sem idade,
vi rapazes feitos homens a trocar pressa por verdade.
Vi o pó da praça erguer-se, vi mudar a cidade...
Mas há olhares que não mudam, só aprendem a disfarçar.
Mãos rachadas pelo campo.
Casacos gastos de inverno.
Quem aprendeu a falar pouco
raramente fala ao de leve.
Vi quem partiu por um sonho...
e voltou por uma saudade.
Porque há distâncias que cabem num mapa.
Outras...
Nunca saem da cidade.
Senta-te.
Não me contes a tua vida.
A madeira conhece o peso
antes da voz.
Senta-te.
Respira.
Há dias
em que um banco
segura mais gente
do que uma igreja inteira.
Já vi um velho ficar horas
a olhar o mesmo largo.
Não esperava ninguém.
Esperava apenas
que a lembrança chegasse primeiro.
Vi miúdos a correr atrás do mundo.
Hoje passam devagar...
Como quem procura
o sítio onde deixou
a última versão de si.
Há nomes gravados em mim
que o tempo já não pronuncia.
Mas eu...
Ainda os sei de cor.
Um dia...
A praça muda.
As casas mudam.
As vozes mudam.
Eu continuo aqui.
À espera de mais uma história
que ninguém terá coragem
de contar inteira.
Por isso...
Senta-te.
Não para descansar.
Mas para perceberes
que ninguém passa por uma terra.
É a terra
que passa por nós.