Nasci onde o silêncio tem mais voz que a multidão,
onde o vento escreve salmos na poeira do chão.
O tempo não corre... senta-se à sombra do sobreiro,
e ensina que o homem nasce nu... E morre inteiro.
Vi castelos a cair sem perderem a memória,
e homens de fato a venderem nome pela glória.
A terra nunca promete, apenas reclama verdade,
porque a mentira tem pernas... Sem conhecer eternidade.
Cada pedra desta estrada sabe mais que um doutor,
já viu reis a perder tudo e um pastor vencer a dor.
Aprendi que o ouro enferruja quando lhe falta valor,
e que uma fatia de pão divide melhor o amor.
Não invejo quem sobe por escadas de ilusão,
prefiro um monte vazio cheio de contemplação.
Aqui quem domina o mundo continua prisioneiro,
sem nunca aprender a conversar consigo primeiro.
Por aqui.
Somos barro...
antes da carne.
Por aqui
Somos vento...
antes do nome.
Por aqui.
A vida não mede homens pela voz que fazem,
mede-os pelo silêncio que suportam quando ninguém os vê.
O sol nunca pediu licença para queimar a pele,
e a morte nunca perguntou quem era o dono dela.
Então diz-me...
porque vive tanta gente a fingir eternidade,
quando basta um sopro para calar qualquer vaidade?
Vi rios secarem sem deixarem de ser caminho,
como vi quem tinha tudo morrer sozinho.
A riqueza pesa pouco quando chega o julgamento,
Por aqui a alma nunca compra um segundo ao tempo.
O Alentejo não é terra...
é um espelho sem piedade.
Mostra-te quem és
quando desaparece a cidade.
As planícies não são vazias...
estão cheias de perguntas.
Quem escuta o horizonte
aprende respostas profundas.
Não procuro aplausos...
procuro permanência.
Porque a fama adormece...
E a essência cria descendência.
Por aqui.
Quando eu partir...
não contem o dinheiro.
Por aqui.
Contem as árvores onde descansei.
As mãos que apertei.
Os silêncios que respeitei.
Por aqui.
O homem não pertence à terra...
é a terra...
que, por um instante,
lhe empresta um nome.
Por aqui.