**Shhh...**
Fala baixo...
**Shhh...**
As varejeiras já acordaram.
Cheiram o sangue...
Antes de verem a ferida.
Vivem da conversa...
Nunca da própria vida.
Andam de roda...
À procura de assunto.
Mas quando a verdade chega...
Desaparecem num segundo.
Sabem o meu nome.
Não sabem quem eu sou.
Contam capítulos...
Do livro que ninguém lhes mostrou.
Quanto mais sossegado eu fico...
Mais elas fazem festa.
Quem vive do barulho...
Não aguenta a resposta direta na testa.
**Shhh...**
**Varejeiras...**
Voam baixo.
Fazem barulho.
E acham que não deixam rasto.
**Shhh...**
**Varejeiras...**
Eu não vos corro.
Abro uma janela...
E deixo o vento fazer o resto.
**Shhh...**
Enquanto contam vidas...
Eu conto horas de trabalho.
Enquanto inventam histórias...
Eu levanto mais um degrau.
Não preciso dessa plateia.
Nem de aplauso coscuvilheiro.
**Shhh...**
Quem anda direito...
Dorme sem sobressalto.
**Shhh...**
O respeito não se compra.
Não vem com um cargo.
Constrói-se devagar...
É pedra sobre pedra.
Deus...
Fecha-me a porta ao veneno.
Abre-me só um caminho.
**Shhh...**
**Varejeiras...**
Continuem a voar.
Quanto mais falam...
Mais pequeno fica o vosso mundo.
Eu fico na minha.
Vocês ficam no zumbido.
No fim...
Só o silêncio...
Tem razão.
**Shhh...**
**Shhh...**