Era uma vez…
não é um conto.
É memória.
Era uma vez um puto cheio de fé no olhar,
achava que o mundo respondia a quem soubesse amar.
Tinha sonhos grandes demais para o bolso roto,
e um coração aberto
num sítio cheio de lodo
Prometeram-lhe tempo, deram-lhe espera,
prometeram-lhe mãos, soltaram na primeira queda.
Aprendeu cedo que nem toda a verdade é dita,
e que o silêncio também mata — mas devagar, e fica.
Cresceu a ver finais que não eram felizes,
histórias cortadas a meio, pessoas perdidas nas crises.
Cada perda deixou peso, cada erro deixou nome,
e a inocência morreu cedo, ela deixou-lhe fome.
[Refrão]
Era uma vez… e ainda dói lembrar,
porque o “era” não morreu, só aprendeu a calar.
Era uma vez… quem eu fui, quem sonhei,
hoje sou cicatriz viva do que amei.
Era uma vez… não acabou aqui,
é só o começo torto do que resisti.
Se perguntas por finais, não os tenho à mão,
algumas histórias vivem só no coração.
Era uma vez amor sem promessa escrita,
fé sem altar, dor que ninguém visita.
Falava com a lua quando o mundo dormia,
porque era a única que não o interrompia.
Aprendeu a perder sem fazer barulho,
a sorrir por fora enquanto afundava em orgulho.
Cada passo em falso ensinou-lhe a ver,
que nem tudo que cai está a perder.
O tempo passou, mas não apagou nada,
só organizou a dor numa ordem mais clara.
Hoje sabe quem é quando ninguém vê,
e isso vale mais do que aplausos em pé.
[Refrão]
Era uma vez… e ainda dói lembrar,
porque o passado não some, aprende a esperar.
Era uma vez… quem eu fui, quem sangrei,
hoje sou o eco vivo do que enfrentei.
Era uma vez… virou aviso em mim,
nem tudo que começa tem um fim.
Se o mundo pede pressa, eu caminho devagar,
há histórias que só o tempo sabe contar.
Já não conto histórias para pedir perdão,
conto para não me perder na escuridão.
O que vivi não foi em vão, foi lição,
e cada falha escreveu-me a mão.
Não virei herói, virei consciente,
não virei frio, virei resistente.
Se sobrevivi foi por dentro, sozinho,
com Deus nas sombras a mostrar