O ferro ganha ferrugem.
A madeira ganha história.
Nesta praça ninguém compra
o peso da própria memória.
A cal estala nas paredes,
Agosto racha o chão,
o café abre primeiro
do que a conversa da multidão.
Há um velho que chega cedo...
Não falha um amanhecer.
Traz a mesma boina gasta,
já viu meio mundo morrer.
As mãos parecem sobreiros,
a pele cheira a restolho.
Não fala da vida a ninguém...
mas responde com os olhos.
Vi rapazes cheios de lume
a jurarem conquistar cidades.
Hoje voltam mais devagar...
com os ombros cheios de saudades.
Senta-te.
Não tragas máscaras.
Nesta terra,
a poeira cola-se às botas...
e a verdade
cola-se aos homens.
O sino marca as horas...
mas quem manda é o sol.
As cigarras fazem barulho
onde o silêncio tem farol.
As esquinas sabem nomes
que nunca foram escritos.
Há promessas enterradas
debaixo dos paralelepípedos.
Aqui aprende-se cedo
que o orgulho não dá pão.
Mas também se aprende
a nunca vender a razão.
Não somos feitos de luxo.
Somos barro.
Cal.
Cortiça.
Ferro.
Somos filhos de uma planície
que ensinou a resistir
antes de ensinar a vencer.
Quem olha...
vê um banco.
Quem sente...
vê gerações.
Sentaram-se namorados
a sonhar uma casa.
Sentou-se um pai
sem saber como enchia a mesa.
Sentou-se um miúdo
a querer fugir daqui.
Sentou-se um homem...
e percebeu
que nunca tinha ido embora.
Porque o Alentejo
não prende ninguém.
Mas deixa raízes
que nem o tempo arranca.
Há terras que se visitam.
Esta...
fica a viver dentro de nós.
Se um dia passares por esta praça...
Não perguntes quem aqui chorou.
Nem quem venceu.
Olha apenas à tua volta.
Porque cada risco...
cada pedra...
cada sombra...
tem mais verdade
do que mil monumentos.
E enquanto houver alguém
que ainda pare cinco minutos
para ouvir o vento passar...
Esta terra...
nunca ficará em silêncio.