[Verso 1]
Trago convulsões semânticas na laringe noctívaga
uma combustão intrínseca quase inexorável
dicção oblíqua, pulsação centrífuga
e uma lucidez perigosamente inabitável
Não fui concebido para medianias estéticas
nem para convivências protocolares e sintéticas
há demasiadas almas anestesiadas
por narrativas superficiais e métricas genéricas
A minha escrita nasce sísmica
entre fuligem psíquica e erosão anímica
cada verso transporta densidade telúrica
e uma melancolia filosoficamente sígnica
[Refrão]
Sou excesso consciente
vertigem em forma de linguagem
Enquanto muitos performam personagens
eu transformo colapso interior
em arquitectura de imagética selvagem
[Verso 2]
Há litígios invisíveis na minha frequência
memórias corrosivas em combustão lenta
e uma espécie rara de resistência
que sobrevive mesmo quando tudo rebenta
Já atravessei atmosferas cadavéricas
conversas narcísicas e afectividades histéricas
gente impecável na indumentária
mas emocionalmente periférica
Hoje selecciono presenças pela vibração
pela subtileza do olhar e respiração
porque a verdadeira sofisticação
não faz espectáculo da própria elevação
[Ponte]
O mundo contemporâneo idolatra ruído
mas a profundidade continua clandestina
[Verso Final]
Escrevo como quem disseca o invisível
com precisão quase litúrgica
quero palavras que deixem resíduo emocional
e não entretenimento descartável de estética pública
Há demasiado conteúdo sem substância
demasiada eloquência sem vivência
e eu recuso transformar arte
em produto higienizado para conveniência
Por isso a minha voz permanece indócil
densa
quase desconfortavelmente lúcida
Porque algumas verdades
não nasceram para soar leves
[Outro]
E talvez seja exactamente isso
que lhes concede permanência