Olá...
Sabia que ias aparecer.
Senta-te...
O café ainda está quente.
Bates à porta sem fazer barulho, como quem já tem chave,
No início amaldiçoei-te... hoje a tua visita já me cabe.
Sentas-te à minha frente, não dizes uma palavra,
Há noites em que o teu silêncio vale mais que quem fala.
O relógio rasga as horas... tic... tac... devagar,
Lá fora passa o mundo... cá dentro aprendo a ficar.
A cadeira da cozinha conhece o peso deste peito,
É nela que percebi que eu também se faz desfeito.
Fiz as pazes com o espelho... deixei de baixar os olhos,
As cicatrizes já não são vergonha... são os meus pergaminhos.
Perder também é caminho, mesmo quando custa aceitar,
Há sementes que só rompem... depois da terra as tapar.
Olá, solidão...
Já não és tempestade.
És a rua vazia...
Depois da cidade.
Olá, solidão...
Ficaste sem pedir.
E foi contigo...
Que aprendi a me ouvir.
Vi folhas a dançar onde antes via abandono,
Percebi que até o Outono tem direito ao seu trono.
Há bancos de jardim que conhecem mais segredos,
Do que muita boca cheia de certezas e medos.
Já não corro atrás do tempo... deixo-o passar por mim,
Porque tudo o que floresce... também conhece um fim.
E ao dizer quem me ensinou a viver,
Direi: foi a solidão... quando deixou de me doer.
Se voltares amanhã...
A porta fica entreaberta.
Nem toda a companhia...
Tem voz.
Às vezes...
O silêncio...
É a conversa mais honesta.
Será um café no meio da nossa conversa.