Num só peito cabe o medo e a vontade de o vencer,
num só dia há uma vida que ainda não soube nascer.
Num só olhar cabe um mundo que ninguém consegue explicar,
e num segundo muda tudo sem sequer pedir lugar.
Eu já quis ter mais tempo, hoje quero mais verdade,
porque o relógio não perdoa a nossa falta de coragem.
Há momentos que duram menos que um café à janela,
ficam uma vida inteira agarrados à memória dela.
Num só abraço cabe aquilo que a boca não consegue,
num só “fica” há mil coisas que o orgulho nunca entrega.
Num só beijo há despedidas que ninguém quer admitir,
há amores que começam precisamente quando deixam de fugir.
Num só.
Tudo o que é nosso cabe num só.
Uma vida, um instante, um olhar,
se for para ser vivido, que seja até num só fim.
Num só prato dividido, numa mesa sem cerimónia,
numa conversa madrugada dentro, sem pressa, sem cronologia.
Num só caminho sem destino, duas sombras lado a lado,
e de repente o mundo inteiro parece bem estacionado.
Não quero promessas enormes, nem futuros desenhados,
quero o presente sem filtros, os minutos mal gastos.
Quero rir quando não há motivo, ficar quando posso ir,
há formas de amar que só existem se soubermos sentir.
Num só erro podes perder aquilo que demorou anos,
num só gesto podes salvar alguém dos próprios enganos.
Num só dia podes perceber o que andaste a procurar,
e num só “desculpa” devolver o que o orgulho fez tirar.
Num só.
Tudo o que é nosso cabe num só.
Se a vida não me der outro lugar,
que este me encontre vivo quando chegar num só fim.
E se amanhã tudo mudar,
não me perguntes o quanto guardei.
Perguntem-me quantas vezes
eu realmente estive lá.
Uma vida inteira pode caber
numa tarde que ninguém fotografou.
Um amor pode caber
num olhar que ninguém viu.
Num só instante tão inteiro
que o tempo não conseguiu levar.
Num só peito.
Num só abraço.
Num só caminho.
Num só.