O mundo era grande e eu era tão pequena
Trancada num quarto, vivendo um dilema
Onde o toque era monstro, a sombra era medo
Guardando o rastro de um sujo segredo
Me jogaram no lixo com a alma rasgada
Uma boneca quebrada na beira da estrada
O silêncio cobria o que a voz não dizia
E na noite mais escura, a dor me consumia
Mas o barulho chegou pra afastar o terror
Onde havia o trauma, hoje existe o amor
Você é o acorde que me faz levantar
Eu sou a agulha que vai nos curar
No meio do lixo que o mundo largou
A gente achou vida, a gente se amou
Pé descalço no asfalto, sem teto, sem pai
Crescendo no Lixão onde a esperança cai
Eu fazia barulho pro medo afastar
Gritando bem alto pra ninguém me tocar
Mas quando te vi, meu mundo parou
Toda aquela marra o seu olho acalmou
Eu não tinha nada, era só um menor
Mas jurei ser seu escudo pra vida melhor
A minha agulha te guia no meio do caos
O seu som me protege de todos os maus
Se o cansaço bate e a mente desaba
No calor do seu peito a tormenta se acaba
O passado foi frio, o corpo sofreu
Mas o meu coração hoje é plano do seu
Remendamos os trapos, mudamos o fim
Você cuida de mim, eu cuido de ti
Eles cresceram com o chão frio de concreto sob os pés e o desamparo correndo nas veias, duas peças que não se encaixavam em lugar nenhum até que o destino cruzou suas rotas no Lixão. Ela carregava as marcas invisíveis de uma violência que tentou roubar sua infância e trancar sua voz em um casulo de silêncio e medo. Ele era o garoto sem nome e sem rumo, que batia latas e arranhava cordas velhas para fazer o mundo recuar diante do seu barulho. Quando se viram pela primeira vez, não precisaram explicar suas feridas; o instinto reconheceu a dor mútua. O barulho feroz dele quebrou a barreira protetora que ela havia erguido, não para invadir, mas para cercá-la com um escudo de som onde nenhum monstro do passado pudesse entrar. Em troca, ela abriu os braços e ofereceu o primeiro porto seguro que aquele menino de rua conheceu na vida.