Tu dizes: “eu nunca faria isso” —
eu digo: eu também.
Vestimos certezas apertadas
até a verdade ficar sem pulso.
Tu queres razão,
eu quero ter razão,
duas versões da mesma história
a disputar o mesmo chão.
Eu também minto quando digo que estou bem,
também julgo o que não conheço,
também já fui alguém
que hoje mal reconheço.
Já disse “não” tantas vezes
que não perdeu valor,
há promessas que envelhecem
mais depressa que o seu autor.
Tu escondes o teu no peito,
eu disfarço o meu no jeito,
cada um guarda um defeito
como quem guarda um segredo.
Há quem venda princípios,
compre exceções à dúzia,
quem pregue justiça
com a balança cheia de ferrugem.
Tu apontas para eles —
eu aponto para ti.
E quando o dedo volta,
há qualquer coisa de mim.
Se tu tens um lado escuro,
eu também tenho o meu.
Não és tão diferente,
nem eu sou quem prometi ser.
Somos feitos do mesmo barro,
cada qual com sua fissura,
há quem transforme a queda em arte,
há quem lhe chame desventura.
Queres parecer inteiro,
eu também já quis parecer,
ninguém passa a vida ileso
quando aprende a sobreviver.
Há vaidade na humildade,
há orgulho em pedir perdão,
há quem diga “foi sem querer”
já sabendo a intenção.
E eu não venho dar lições,
Só algumas perguntas no bolso:
quantas vezes fomos juízes
sem conhecer o processo?
Apontas para o mundo,
eu olho para o reflexo.
É estranho ver no outro
o que se esconde tão bem.
Seremos isso?
contradição com pernas.
Um pouco de céu na boca,
com tudo atrás das costelas.
Nem bons, nem maus,
é conforme a porta que abrimos.
Somos tudo aquilo que fazemos
quando ninguém fica para assistir.
Se tu tens um lado escuro,
eu também tenho o meu.
não és tão diferente,
nem eu sou quem prometi ser.