Conheço o peso de quem nunca disse adeus,
De cotovelos gastos a prender os dias seus.
Vi mãos calejadas sem um tostão no bolso,
E olhos que escondiam tempestades atrás do almoço.
Levam namoro em segredo, promessas riscadas na pele,
Um "até já" mal engolido, que o vento nunca devolve.
Ouvi gargalhadas que hoje dormem no cimento,
E nomes gravados a canivete, e assim vencendo o esquecimento.
Passaram botas cheias de barro, sapatos de domingo,
Miúdos a sonhar Lisboa, velhos fiéis ao seu caminho.
Uns partiram sem voltar, outros voltaram diferentes,
Sempre deixaram qualquer coisa presa entre os veios quentes.
Senta-te.
Não perguntes quem eu fui.
Olha à volta.
Tudo muda...
Não o que fica
quando alguém se levanta.
Já vi o café arrefecer entre duas mãos cansadas,
Discussões por meia dúzia de hectares e algumas madrugadas.
Vi cartas abertas devagar,
sem vontade de as ler,
E um sorriso tão pequeno...
que chegou para renascer.
Conheço o sino da igreja antes de tocar a hora,
As andorinhas quando voltam, quando o calor vai embora.
Conheço o cheiro da terra antes da primeira chuva,
E o pó da praça a subir quando o verão se desnuda.
Nunca corri atrás de nada, não preciso partir,
Mesmo parado aprendi, tem preço, e o que custa é sem desistir.
Há quem conte os próprios anos, eu conto quem regressou...
a distância não vence quem aqui ficou.
Se um dia me vires vazio...
Não tenhas pena.
Os bancos nunca ficam sós.
Ficam à espera.
Senta-te.
Traz o que não disseste.
Deixa ficar.
Este banco não responde.
História que para lá vai.