[Verso 1]
Há um langor oblíquo na madrugada
uma penumbra balsâmica e calada
e eu atravesso a cidade enevoada
com a alma febril, quase incendiada
Carrego um fervor crepuscular
destes que nenhum inverno faz cessar
um ímpeto telúrico a latejar
mesmo quando tudo parece desabar
A tua voz tem qualquer coisa de diáfano
quase etérea, rara, de outro plano
e eu tão noctívago, tão insano
fico suspenso no teu magnetismo arcano
[Refrão]
Bonança…
mas daquelas que chegam devagar
como brisa morna sobre o vendaval
de um coração prestes a naufragar
Bonança…
com fulgor dentro do olhar
porque até as almas mais lúgubres
também nasceram para amar
[Verso 2]
Há um torpor doce na tua presença
uma quietação funda, imensa
e no meio desta existência densa
tu pareces devolver consistência
Trago melancolia no subtexto
e um lirismo quase indigesto
porque o mundo tornou-se modesto
para tudo aquilo que manifesto
Vejo beleza no inexorável
na erosão lenta do inevitável
e mesmo o meu lado mais indomável
aprendeu a tornar-se contemplável
[Ponte]
Talvez viver seja isto…
persistir
mesmo quando o tempo
nos deixa exangues por dentro
[Outro]
E ainda assim…
há luz suficiente em nós
para continuar