A primeira carta tinha cheiro a fumo,
palavras gastas pelo tempo e pelo mundo,
falava de noites sem rumo,
e sonhos deixados no fundo.
Dizia que eu já fui mais leve,
antes da pressa me tornar breve,
antes da dor virar costume,
antes do silêncio ganhar volume.
Havia nomes riscados na margem,
e promessas perdidas na viagem,
cada linha parecia miragem,
cada memória pedia coragem.
Três cartas abertas na mesa,
uma fala de dor, outra de beleza,
e a última guarda a incerteza,
de quem ainda procura firmeza.
A segunda carta vinha molhada,
como se tivesse sido chorada,
falava da vida acelerada,
e da alma cansada.
Dizia:
“ainda vais a tempo de sentir,
ainda podes reaprender a rir,
há coisas dentro de ti
que ainda estão para surgir.”
Mas também falava da ansiedade,
das noites presas na cidade,
de procurar identidade
em corpos sem verdade.
Três cartas abertas na mesa,
uma fala de dor, outra de beleza,
e a última guarda a incerteza,
de quem ainda procura firmeza.
A terceira carta vinha vazia,
sem tinta, sem fotografia,
como se o futuro não existia
até eu escolher a direção que seguia.
Só havia uma frase no final:
“não deixes morrer o essencial.”
E eu fiquei ali em silêncio,
a sentir o peso existencial.
Porque o amanhã não está escrito,
nem o destino é infinito,
há caminhos feitos no grito,
e outros no que fica omitido.
Agora guardo as três comigo,
passado, presente e o desconhecido,
como capítulos do mesmo livro,
de alguém que ainda procura sentido.