Há copos meio cheios em mesas cansadas,
conversas partidas, verdades caladas,
o tempo a rir-se nas horas gastas,
promessas antigas em folhas gastas.
Um cão na esquina conhece o bairro,
mais do que quem vive no calendário,
pessoas passam, mas não ficam,
olhares tocam, mas não explicam.
Chave no bolso, mãos no inverno,
vida repete o mesmo caderno,
linhas tortas, letra sem pressa,
cada dia finge que recomeça.
Entre o barulho e o vazio,
há um mundo que ninguém viu,
tudo corre, mas nada avança,
tudo pesa, mas ninguém cansa.
Um café frio, manhã repetida,
notícias antigas chamam de vida,
pombos discutem o espaço vazio,
como se o mundo fosse brio.
Elevador sobe sem perguntar,
quem entra sabe que vai voltar,
mesmo destino, roupa diferente,
mesma estrada dentro da gente.
Há quem procure sem saber o quê,
há quem encontre e não vê porquê,
eu só observo, não dou resposta,
a vida pergunta, mas não se aposta.
Entre o barulho e o vazio,
há um mundo que ninguém viu,
tudo corre, mas nada avança,
tudo pesa, mas ninguém cansa.